Ohnografias

Ohnografias, fotografia, 70x106cm, 2010

Description

Fotografias em alto-contraste tiradas durante uma apresentação do dançarino Yoshito Ohno – filho do Kazuo Ohno, inventor do butoh. As fotos apresentam pouco ou nenhum vestígio da figura humana fotografada e resultam numa espécie de sombra branca, falando mais daquilo que não está do que daquilo que é, de algo revelado mas que não se revela, de uma espécie de referente que não adere. O trabalho dá sequência às pesquisas da autora sobre fotografia em questões como a presença da ausência e a fantasmagoria da imagem fotográfica. O título faz alusão às “Rayografias” de Man Ray.

Exposições

2011 / Vigília / ABRA Vila Mariana / São Paulo
https://www.flickr.com/photos/bethbarone/sets/72157625737403520/

Textos adicionais

“O trabalho é composto por fotografias do dançarino Yoshito Ohno, tiradas no final dos anos 90, durante uma apresentação de butoh, uma dança tradicional japonesa cuja maquiagem melancólica – com uma pintura branca sobre todo o corpo – procura esconder pele e pelos, tentando revelar as “formas da alma”. Segundo Solange Caldeiras, no butoh “a obra é uma espécie de moldura para a autocontemplação de um olhar que encara o vazio existencial. (…) É necessário luz para se ver o oculto, e este oculto está dentro de cada um”. As fotografias foram obtidas com uma câmera analógica, cuja película p&b (Tri-X da Kodak) foi utilizada em processo puxado e teve seu tempo de revelação significativamente aumentado. Como pode ser observado nas imagens, o altíssimo contraste que resultou desse procedimento retirou definitivamente qualquer vestígio da figura humana fotografada, resultando numa espécie de sombra branca. Existem referências na história da origem da pintura que mencionam o uso das mãos que, colocadas sobre uma parede, assoprando-se sobre elas um pó colorido, resultavam numa imagem de “um traço, uma transposição, o vestígio de uma mão desaparecida que estava ali (…) O resultado, imagem de um contorno por contato, aparece assim como uma sombra em negativo, figura em branco, em oco, esvaziada, pintura não pintada (…) obtida por subtração” . Na fotografia, esse padrão de trabalho, também obtido por subtração, aparece nas famosas Rayografias de Man Ray e nos Fotogramas de Moholy-Nagy, imagens obtidas sem câmeras, nas quais objetos são colocados sobre papel fotográfico (sensível à ação da luz) que, após ser sensibilizado e revelado resultam numa imagem branca (do objeto) sobre fundo preto. Em oposição aos exemplos citados, neste trabalho é a luz refletida oriunda da presença do referente que se inscreve sobre a película registrando o branco absoluto que nos remete diretamente às técnicas de subtração citadas. A foto que deveria atestar que o homem esteve lá, acaba por atestar sua ausência, pois ultrapassa seu referente, congelando-o nesse índice parcialmente autônomo que se move e tenta sair de cena pela representação sequencial executada no ato da tomada. Outra possível referência é o desenho de sombra, que também aparece em citações referentes à origem da pintura, na qual se usava um carvão para desenhar sobre a parede a sombra daquele que alí está e que logo não estará mais, restando apenas sua silhueta. “O desenho vem de certa forma arrancar a sombra ao tempo de seu referente para fixá-la e detê-la num tempo que lhe seja próprio (…) e corresponde finalmente a um grande fantasma” . Trata-se de uma técnica que – assim como a fotografia – necessita da presença da luz para existir.” Beth Barone.

Beth Barone © 2010