Amnésia 3

Amnésia 3, Beth Barone e Clarice Sanvicente, objeto (casa de madeira, pintura a óleo, câmera, vidro, impressão de fotografia sobre papel vegetal e tripé), 30(A) x 26(L) x 29(P) cm, 2012

Description

O trabalho Amnésia 3 é uma casa de madeira de apenas um cômodo que simula, com sua pintura, uma casa velha. Com um orifício traseiro simulando uma janela, a “casa-câmera” capta as imagens da galeria ou da área externa e as projeta no interior da mesma. A projeção se dá sobre uma impressão fotográfica feita sobre papel vegetal cuja imagem mostra dois olhos abertos extraídos de um retrato antigo. A imagem em tempo real e a fotografia dos olhos do homem criam um contraste entre presente e passado, entre permanente e transitório. A casa é construída como um objeto investido de sentidos, principalmente através de sua pintura, feita por Clarice Sanvicente, que a caracteriza como um “memorial”. O trabalho “Amnésia 3” teve um projeto piloto em 2007. Em 2012 ela foi reformulada e reconstruída numa nova versão.

Exposições

Exposições

2017 – Ela, as imagens / Galeria Vértice / Espaço Cultural Vértice / São Paulo / São Paulo
https://www.flickr.com/photos/bethbarone/albums/72157686961633941
2016 – lá onde ele está não há ninguém / GARE – ABRA Vila Mariana / São Paulo / São Paulo
https://www.flickr.com/photos/bethbarone/sets/72157675380396535/
2012 – incômodos / Casa do Olhar Luiz Sacilotto / São Paulo
https://www.flickr.com/photos/bethbarone/sets/72157629502212719/
2007 – Casa Tomada / ABRA Vila Mariana / São Paulo
https://www.flickr.com/photos/bethbarone/sets/72157603263367562/

Textos adicionais

“O trabalho Amnésia 3 é um objeto de madeira que simula, com sua pintura, uma casa velha de apenas um cômodo (…). Dentro do objeto foi embutida uma câmera fotográfica analógica que teve sua tampa traseira retirada. A lente dessa câmera está voltada para um orifício que simula uma das janelas da casa. (…)
Dessa forma a “casa-câmera” capta as imagens daquilo que está à sua frente e as projeta, de ponta cabeça, no interior da mesma. A projeção se dá sobre uma pequena impressão fotográfica transparente, feita com jato de tinta sobre papel vegetal. Nesta impressão há dois olhos abertos extraídos do retrato de um homem. (…) Como o objeto está encaixado num tripé fotográfico, existe a possibilidade do público alterar a posição da “casa-câmera”, visualizando outras imagens sobre os olhos impressos.
A opção por construir um objeto num formato de uma casa se deu por se tratar de um local onde, em geral, passamos anos de nossas vidas junto aos familiares, transformando-se num ambiente repleto de memórias. A pintura da parte externa, feita por Clarice Sanvicente, dá o sentido do tempo que passou, caracterizando-a como um memorial.
A parte interna da casa é escura, representando aquilo que Freud (1900) denominou de inconsciente: o lugar onde as memórias se depositam, mas que permanecem em estado latente, numa espécie de invisibilidade. A única área visível e iluminada é a da projeção formada por duas camadas: a fotografia dos olhos do homem com a sobreposição da imagem em tempo real, criando um contraste entre o passado e o presente, entre o permanente e o transitório, com uma imagem contaminando a outra.
Como vemos em Freud (1900), para explicar a vida psíquica, utilizou as metáforas arqueológicas, traçando comparações entre a mente e as cidades de Roma e Pompéia, as quais ele chamou, respectivamente, de ruína/cidade eterna e recalcamento/enterramento. Para ele, nada do que um homem vivencia se perde. Ele explica que, assim como Roma, a mente acumula tempos sobrepostos, com várias camadas históricas e, assim como Pompéia, tudo está ali perene, conservado integralmente, porém enterrado no inconsciente. Nesse sentido a projeção sobre os dois olhos faz alusão a Roma enquanto toda a área escura da “casa-câmera” se refere a Pompéia.
Pelos exemplos mostrados nas Figuras (…) é possível constatar que os dois olhos da foto impressa estão na posição correta, ou seja, na posição em que estamos acostumados a vê-los. Já a projeção ocorre com a óptica invertida, insinuando que aquilo que vemos do mundo nem sempre é como pensamos ser já que nossa mente as interpreta com toda a bagagem anterior de nossas memórias conscientes ou não.
Neste trabalho também foram exploradas a mistura entre linguagens artísticas (fotografia e pintura) e a necessidade da interação entre público e objeto.” Beth Barone para a monografia “Fotografia e memória: a presença de uma ausência” (2013).

Beth Barone © 2007/2012