Procura-se - Edição Vila Mariana

Description

O trabalho é composto por cartazes fictícios de PROCURA-SE nos quais a autora utiliza fotografias de pessoas desconhecidas dos anos 1920 e 30 que são inseridas na história real da Vila Mariana. Com essa junção os cartazes passam a ter o atributo da verossimilhança, daquilo que parece intuitivamente verdadeiro na relação entre imagem e texto, reivindicando a memória e a credibilidade dos espectadores em tornar as histórias reais. Este procedimento dá continuidade às pesquisas à fotografia como a função mnemônica e a veracidade atribuídas à ela, algo que a faz funcionar como documento mesmo quando o que foi criado é ficcional.

O trabalho foi feito para integrar a exposição coletiva “O lugar é outro”, do grupo oNucleo, cujo objetivo era fazer uma intervenção urbana no bairro da Vila Mariana, em São Paulo. Os cartazes possuem formato A2 e foram feitos nos antigos moldes dos cartazes de saloon vistos frequentemente em filmes do velho oeste americano. Todos eles foram afixados em bares, padarias ou restaurantes da região.

Exposições

2013 – O Lugar é Outro / Intervenção urbana no bairro da Vila Mariana / São Paulo
https://www.flickr.com/photos/bethbarone/sets/72157635291054506/

Textos adicionais

“A Vila Mariana é algo que nasce e renasce perante os meus olhos, cada vez com uma estrutura diferente e, assim como eu mesmo, ainda não consegui decifrar por inteiro. Ainda pequenino, os arredores da Avenida Rodrigues Alves me lembravam o estardalhaço do motorzinho da minha dentista e o isopor doce dos remédios do meu homeopata. Com o tempo, o bairro virou as aventuras de uma graduação publicitária, um embriagar pelas calçadas da Rua Joaquim Távora. Recentemente, na Rua Pelotas, a Vila virou a minha yoga e o meu meditar, mas ontem a Mariana novamente foi reconfigurada dentro da minha caixola e toda essa configuração se aflorou por causa de um cartaz. Menina gorducha com babados de boneca, galopava em um cisne opaco que brincava com o tempo. 1934? (…) E o Córrego do Sapateiro? Este o Google me ensinou que suas águas estão lá, na indecifrável Mariana. Um Q.R. code (…) me deu uma dica, ao abrir apareceu a página d’oNúcleo e um projeto com o titulo de “O Lugar é Outro”. Já com o olhar mais aguçado, saí pelas ruas. Ví caixas multi coloridas em um hostel, guardanapos com mensagens de afeto em uma padaria e quando reparei um muro com outro “procurado” em um século errado perguntei pro balconista do estabelecimento, de onde vem esse cartaz?.” Encaminhado para a sede d’oNúcleo, conheço o Elias Muradi, um dos coordenadores do projeto. O Elias então sentou de costas para uma parede com um mapa que demarcava uma área da Vila Mariana e começou a me contar do projeto. Justamente nessa área demarcada no mapa, um quadrilátero formado pelas ruas Pelotas, Humberto I, França Pinto e Dr. Amâncio de Carvalho, que um grupo de 8 artistas – Ana Rey, Beth Barone, Angela Camata, Marinalva Rosa, Antonio Gama, Letícia Basso, Rita Heckert e William Pimentel – ficou encarregado de ativar intervenções artísticas em espaços comuns. “A proposta foi que os artistas que compõem o núcleo fizessem uma intervenção, com trabalhos deles, em locais não institucionais”, explicou. “Como a gente faz sempre uma proposta pra ampliar a produção poética deles, a gente pensou em fazer um trabalho na malha urbana. Essa inserção é às vezes mais silenciosa e ela trabalha com a percepção das pessoas que visitam aquele lugar todos os dias. Muita gente não vai perceber nada, muita gente vai perceber”. (…) o que mostra como é interessante o laboratório de colocarmos um elemento típico de um lugar em outro (…). É um movimento de sair do conforto do artista, sair de um espaço onde as pessoas estão pré dispostas a absorverem a arte e migrar para a rotina urbana. “A pessoa (o artista) trabalha bem no seu limite. Ela alarga possibilidades e isso vai refletir depois em seu trabalho. (…)”, introduziu o Elias enquanto me contava como foi a caminhada (…) para os artistas realizarem suas intervenções. Em todas as obras é possível ver uma pegada de conexão com o bairro e com as pessoas, como por exemplo no “Simples De” da Angela Camata e o “Procura-se”, que se trata de um passeio da Beth Barone pela memória do bairro. (…) “Foi um trabalho que a gente teve que primeiro fazer a demarcação do território, ir a campo buscar parceiros, até pensar no que colocar, então esse “o que colocar” foi discutido muito tempo também”, ponderou o Elias. Fato é que como receptor da ação também gastei tempo, mais muito tempo garimpando cada intervenção e mesmo assim absorvi uma porcentagem muito pequena de tudo que “O Lugar é Outro” está fazendo pelo bairro. (…) A verdade é que a Vila Mariana sempre foi um carrossel de experiências na minha vida. Ontem esse carrossel girou como arte e essa arte, por si só, será uma série de giros a cada nova exploração durante esses dias do projeto d’oNúcleo.” Adolfo Martins, comunicólogo, criador do blog “Não só o gato”.

Beth Barone © 2013