Beth Barone

Fotografias

Beth Barone

Geografia dos sonhos

Seria possível vislumbrar o mundo em que se vive enquanto se dorme? As águas paradas de um lago, florestas escuras, ambientes inóspitos de difícil acesso, são algumas das diversas metáforas utilizadas pelos teóricos da psicanálise para falar sobre o inconsciente. Segundo eles, é nesse espaço mental que as memórias são guardadas: algumas mais fáceis de acessar e outras, mais traumáticas, seguem recalcadas no mais profundo e obscuro da psiquê.

Neste ensaio procuro criar poeticamente esse ambiente. Nele, uma personagem surge em situações imaginárias nas quais o sono profundo já se deu, permitindo-nos supostamente vislumbrar esse mundo em que vivemos enquanto dormimos.

Este projeto foi motivado pela experiência de ter convivido durante três anos com minha tia acamada cuja vida se resumia a muitos momentos de sono e poucos momentos de vigília. Neste período uma pergunta insistia em reaparecer: “em que mundo ela está vivendo?”. Após o seu falecimento me apropriei de alguns objetos dela como suas camisolas, lustres e um quadro de sua mãe, para desenvolver o trabalho.

Este ensaio gerou um livro chamado “Geografia dos Sonhos” que foi lançado pelo Fotô Editorial. Ele é o volume 4 da Coleção de Ensaios Fotográficos da editora.

Exposições

2017 – Anatomia do Ensaio Fotográfico | Ensaios Artístico-Fotográficos / SESC Campinas / Campinas / São Paulo

Publicações

2018 – Livro “Geografia dos Sonhos” / Volume 4 da Coleção de Ensaios Fotográficos / Fotô Editorial / São Paulo / São Paulo
https://www.fotoeditorial.com/
2018 – Análise do livro 'Geografia dos Sonhos" por Juan Esteves / Blog do Juan Esteves
http://blogdojuanesteves.tumblr.com/post/175044428291/floema-sonia-dias-geografia-dos-sonhos-beth

Textos adicionais

“Há um instante entre instantes no qual luzes tênues incidem em diagonais, conferindo à paisagem da vida uma visão-vertigem em ritmo de diorama. Eis que entre o factível e a irrealidade repousam potências de fábulas extraídas da experiência amorosa correlata às histórias familiares. Prenúncios de enredos emaranhados nas tramas dos afetos gestam imagens que se entorpecem nas espirais das gerações justapostas no tempo infinitesimal da vida. Luzes tênues que escrevem e inscrevem na geografia uma paisagem despertada das profundezas. Memória-sonho sonâmbula. Engrama de uma Geografia do Sonho, ensaio que a fotógrafa Beth Barone procura desenhar com lampejos de imagens. Vagando por uma vasta floresta, ora mítica e frondosa, ora transfigurada em um território árido e desolador, uma circunspecta figura feminina, em flagrante devaneio, emite sinais especulares desde seu promontório. Os azuis celestiais das vestes irradiam-se pela mata, serpenteando-a. Antes de observar o mundo, faz com que o mundo observe no espelho o contorno de sua inacessível face. Ponto abissal de convergência: a mística da figura materna. Quando a noite ameaça precipitar-se com o ocaso de seu manto negro, das femininas mãos ramificam-se candelabros, cujas luzes findam por tornar complementar a gama tonal dos azuis e verdes em profusão e fundem-se em ritmos harmônicos e temperaturas balanceadas. Para essa personagem, um ser múltiplo, a natureza é o lugar fértil para arrebatamentos incontidos. Quando em desalinho, o céu entorna-se nas águas de um lago, criando um efeito caleidoscópico. Dos pés repousados na água, projetam-se imagens ávidas. Significantes não são mais significados. Imagens são aparições de entes misteriosos em desmesuradas escalas das profundezas de um sintoma imemorial. Imaginação e desejos, temores e sofrimentos – a experiência da vida surge num átimo em ritmo cinemático. Serão as águas que se transmutam em etéreas nebulosas? Decerto porque delas azuis e verdes amalgamam-se como os fundos da memória. Paixões adensadas surgem em torvelinho, para fazer reencarnar uma Ofélia shakespeariana. Privada de seu amor, deixa-se seduzir pelas corrente aquíferas que mimetizam paraísos celestiais. Ao regressar dessa viagem por entre mundos inconscientes, caminha ainda em estado de dormência por uma paisagem alterada em profundidade. O universo de azuis e verdes tornou-se uma paisagem desértica, repleta de sulcos e cicatrizes. Enrijecida e árida. Das prolíficas nascentes d’água, resta apenas um pequeno córrego de lama. De um chão cinza queimado, a mítica figura, desnorteada, busca sua aura perdida, sucumbida pelos transes das paixões devastadas. Na alquimia mágica, das linhas dessa Geografia dos Sonhos erguem-se, numa fortaleza, troncos centenários de árvores que se ramificam na terra e aspiram tocar o firmamento. E em um outro mergulho, propiciado pela voragem das águas barrentas, a misteriosa mulher, ícone e arquétipo de todas as mulheres, livra-se dos desatinos de Shakespeare, para reconhecer-se plena e indômita. Não mais como espelho a refletir a dor do mundo, mas como imagem e dessemelhança de suas próprias aventuras. Senhora da geografia dos seus sonhos.” Eder Chiodetto e Fabiana Bruno

Beth Barone © 2018

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